domingo, 19 de setembro de 2010

Apagão de mão de obra, um pacto à mediocridade

De acordo com dados do Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (Ipea), em 2008 havia mais oferta de emprego para quem tem mais escolaridade. A concentração das vagas estava nos trabalhadores com uma média de 11 anos de estudos. Hoje, no Brasil, são necessários 12 anos de estudo para completar toda a educação básica – o ensino fundamental e o médio. No entanto, entre os jovens brasileiros de 18 a 24 anos, a média de escolaridade é de 9,1 anos de estudo.
Dados como esses nos fazem pensar, refletir e analisar o papel da escola para com o futuro das nossas crianças: preparamos os jovens de hoje para o quê no futuro? Talvez, a resposta mais adequada seria para uma vida adulta produtiva e responsável. Um ser humano adulto, para ser feliz e realizado, precisa estar de bem em três grandes áreas da vida que vou chamar de mundos: o mundo da família, o formado pela sociedade (amigos, colegas, igreja, etc.) e o do trabalho.
Muito bem, vamos ao mundo da família. Que tipo de exemplo nós adultos estamos dando para os jovens? Respeito, união, comunhão. Ou o exemplo são brigas, separações, pais usando os filhos para se beneficiar? E no mundo social, que exemplos estamos dando? Temos amigos de verdade, respeitamos os outros? Como preparar um jovem para qualquer um desses mundos se eles não podem viver, experimentar, aprender?.
Pergunto ainda: será que é possível uma vida adulta sem o mundo do trabalho? Feliz, eu duvido. A preparação dos jovens para a vida adulta é tão complexa que é tarefa para uma tribo, mas no Brasil delegamos totalmente à escola.
Há 20 anos, tínhamos crianças sendo exploradas sexualmente, trabalhando em carvoarias, cortando cana, quebrando pedra, vendendo coisas nas ruas. Criamos um monte de leis, genéricas, mas não definimos o que é criança, o que é trabalho, nem separamos o trabalho pedagógico que desenvolve habilidades do trabalho degradante. Hoje, temos a mesma realidade, a mesma exploração das crianças, e mais 34 milhões de jovens fora da escola e sem trabalho. Temos, sim, 98% das crianças brasileiras iniciando o ensino fundamental, mas, de cada 100 que entram na 1ª série, 50 crianças chegam a 5ª sem saber ler um texto de 5 linhas e contar o que leu, ou seja, analfabetos funcionais; 40 abandonam a escola antes de terminar a 8ª série porque não conseguem acompanhar a segunda etapa do ensino fundamental que requer interpretação e, por não acompanhar, abandonam a escola.
Em um passado não muito distante, a partir dos 12 anos, a criança acompanhava o pai no contra turno para aprender o ofício da família. Se gostava de estudar e o pai era pedreiro, eletricista, agricultor, o filho tornava-se engenheiro, agrônomo, etc. Se não gostasse de estudar, tornava-se um mestre de obra, agricultor como o pai, mas tinha trabalho, e sabia trabalhar...

Texto de Ademar Batista Pereira, presidente das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe/PR)

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