domingo, 6 de janeiro de 2013

A antiga escola moderna


Autor de mais de 180 livros didáticos, paradidáticos e pedagógicos, Celso Antunes, mestre em ciências humanas e especialista em inteligência e cognição, mostra na sua mais recente publicação, Antiguidades Modernas, a importância de o professor repensar e qualificar o seu cotidiano pedagógico. Baseado em diversas crônicas, Antunes abre espaço para que o professor faça uma analise sobre temas tradicionais, antigos e modernos da educação.
Revela, em entrevista exclusiva a revista Profissão Mestre, porque as aulas de alguns professores ficam para sempre na memória dos alunos.



Profissão Mestre - Qual é a importância de ministrar aulas com emoção Por que e necessário alcançar a mente do aluno pelo caminho do coração
Celso Antunes - O professor não deve, necessariamente, estar emocionado. Não se trata, como se poderia a primeira vista pensar, que ele deve ser um ator onde externa sentimentos de aguda emoção. Se ele os externar, sem duvida ajuda, mas não é nesse aspecto que o educar, através da emoção, se ressalta. O que se busca realçar e que toda aprendizagem significativa necessita, fundamentalmente, de cinco componentes na ação cognitiva do aluno, e um desses componentes é a emoção. Então a emoção, como os outros quatro paradigmas, e um dos fatores cruciais da aprendizagem. Isso não é um referencial desejável, e um componente essencial do processo de aprendizagem da criança, do adolescente e do ser humano de maneira geral.

PM - Alem da emoção, quais são os outros componentes do processo de aprendizagem?
CA - A memória, indiscutivelmente. O professor deve conhecer estratégias para poder trabalhar a memória do aluno, claro que não uma memória mecânica, repetitiva, mas uma memória onde o aluno contextualiza, onde o aluno associe saberes novos aos que naturalmente ele possui. Alem da memória, a atenção. Ele deve saber trabalhar a atenção do aluno, descobrir formulas para capta-la. E por fim a motivação desse aluno é fundamentalmente a linguagem. Então, esses quatro mais a emoção são componentes estruturais do processo de aprendizagem.

PM - O que é uma boa aula?
CA - Uma boa aula é aquela que contempla a intensidade com que esses elementos sejam trabalhados. Fazendo uma comparação com o quadro educativo e o quadro médico, o que seria um paciente com uma boa saúde? Seria um paciente que realmente não apresentaria, em nenhum aspecto da sua condição biológica, qualquer tipo de deficiência. Uma boa aula é aquela que, no seu aspecto cognitivo, não apresenta nenhuma deficiência desses cinco componentes.

PM - Por que as aulas de alguns professores são mais sedutoras do que outras?
CA - Há uma infinidades de razões, mas em linhas gerais, o que tenho observado e que a estratégia através da qual a aula é ministrada é um componente muito importante. A maior parte dos professores brasileiros, infelizmente, confunde aula com aula expositiva, e a aula expositiva e apenas uma maneira de dar aula. Sabendo ser colocada pode ser excelente, mas e obvio que se o professor conhece apenas essas estratégias e em todas as circunstancias a utiliza, e impossível que ele possa escapar da monotonia. É como o mecânico que precisa conhecer diferentes ferramentas porque a natureza do trabalho dele vai exigir em situações diferentes a oportunidade de uso diversificado e isso também ocorre com o professor. A ferramenta do professor é a aula, mas se ele tem apenas a aula expositiva como ferramenta muitas vezes isso é fator de monotonia, por isso as vezes o aluno tem um grau de motivação na primeira aula do dia que não apresenta no final do dia e assim por diante, porque ha uma repetitividade de conceito nesse processo.

PM - E como o professor pode tornar a aula mais sedutora?
CA - Uma das outras formas de dar aula que ele poderá desenvolver, além da aula expositiva, e trabalhar projetos. Por exemplo, os projetos na verdade parte de um desafio, de situações problemas e os alunos são orientados a buscar caminhos e respostas, interagindo entre si nessa busca, que naturalmente é mediada pelo professor. Outras alternativa são os chamados jogos operatórios onde a situação problema é colocada de uma maneira similar a um desafio, mas que envolve diferentes estratégias para esse alcance. Quando o professor é um arquiteto de desafios , quando ele é um propositor de problemas. Quando ele leva o aluno a se perguntar, a se educar, a dizer não a si mesmo, geralmente ele é um professor muito bem aceito e a aula acaba sendo uma daquelas aulas memoráveis que efetivamente seduz o aluno.

PM - Em um dos seus artigos o senhor cita o jogo de palavras. Como o professor pode utilizar esse método em sala de aula?
CA - De uma maneira muito simplificada, se eu disser a você: "Amanhã eu não vou passear porque vai chover", eu estou concluindo essa afirmação sem propor nenhum desafio, ela é apenas uma informação que você assimilará, mas se eu alterno a ordem das palavras e digo algo como "Passear amanhã chover se vou não", para que você, juntamente com seus colegas estruture e de ordem, portanto de sentido a essas palavras aparentemente soltas mas que integram um todo, você esta se reperguntando, você está desafiando. Então a essência do jogo de palavras e a proposição de desafios, de questões que levam o aluno a construir soluções e respostas. Ele dispõe de palavras, mais ou menos, como quem tem peças de um quebra-cabeça não devidamente montado, só que essas peças são naturalmente palavras que vão compor a sentença, mas que ele construirá.

PM - Então, nesse tipo de aula, o professor é um facilitador...
CA - O professor verdadeiramente educador é sempre um mediador e nesse tipo de aula ele é efetivamente o mediador. Ele levou a situação problema, instrumentalizou os alunos para buscarem a resposta. Esses alunos sabem de quais instrumentos dispõe. Mas realmente ele esta atuando como um desafiador, como um verdadeiro arquiteto de desafios. Nesse contexto a aula acaba se tornando naturalmente mais atraente, mais interessante.

PM - O professor busca ministrar aulas menos cansativas para os alunos. E como ele pode fazer para não cansar-se também?
CA - Na verdade, embora o objetivo de se trabalhar em projetos, trabalhar com jogos operatórios seja o lugar porque, na medida em que ele é um propositor de desafios, diminui muito a carga verbalizadora dele. Não vai em cinco aulas fazer cinco discursos. Em segundo lugar, na medida em que ele dispos aquele aluno num esquema de motivação, de interesse, de participação, ele não tem aquele desgaste de cobrar uma atenção, de impor uma rigidez e nem perceber, no desanimo do aluno, quase que um convite ao seu tédio também. O professor que trabalha assim chegara a noite cansado tão somente pelas horas que ficou em pé, mas não existe aquele cansaço de uma irritabilidade provocada pela tentativa de construir a força uma tensão que espontaneamente não se tem.

PM - O professor deve apoiar-se naquelas lembranças do passado, de quando ele era aluno, para dar aulas mais contagiantes?
CA - Não deve. Até creio que é uma rotina mais ou menos comum, mas não deve. Eu respondo com uma metáfora: se hoje, com qualquer problema de natureza biológica, qualquer doença, procura um médico e ele diz "olha eu vou tratar você como o meu avô médico me tratou", você sai correndo desse consultório porque a medicina evoluiu muito, a farmacologia teve um progresso absolutamente espetacular. Na educação, de forma alguma e diferente. O que se pensava sobre memória, o que se pensava sobre atenção, aula e motivação há 20, 30 anos é muito diferente do que se pensa hoje, então é obvio que se ele teve um professor extremamente talentoso, que se emocionava, assumir as qualidades dessa pessoa, com o que hoje se sabe, ele estaria fazendo a composição ideal. Voltando a metáfora, você ter no médico de hoje a paixão, o entusiasmo, o interesse por você, do médico de antigamente mas com a tecnologia da medicina de agora, ai sim seria ideal. Mas aquela copia literal seria passar por cima de tudo quanto de novo se descobriu.

PM - O que nunca vai deixar de ser antigo na sala de aula?
CA-? Nunca será antigo o professor não responder o que o aluno pode por si mesmo descobrir. Isso sempre será uma estratégia extremamente significativa. O professor nunca pode pensar-se assassino da curiosidade respondendo aquilo que o aluno pode sozinho descobrir, mas também, ao lado disso, nunca será antigo numa sala de aula o entusiasmo, paixão pelo que se faz, percepção do progresso do aluno e entusiasmo por esse progresso. Isso nunca envelhecera, indiscutivelmente.

PM - As lembranças da escola influenciam o aluno na vida adulta?
CA - Ele carrega essas lembranças de uma maneira muito forte e mesmo quando pensa que não está as carregando, as vezes na maneira como ele segura uma caneta, como se dirige aos colegas, ele pode não ter consciência da lembrança, mas por detrás desses atos sempre está um professor, está uma aula, está um texto que ele leu. As marcas e as lembranças da escola são extremamente fortes e poucas vezes temos plena consciência disso mas, incontestavelmente, esses professores estão sempre atrás daquilo que fazemos. Portanto, nega-la e como você negar a importância da memória na aprendizagem ou negar a importância da linguagem, ou mesmo da motivação, ou ainda da atenção.

PM - Muito se discute a influencia do professor sobre o aluno. E a influência do aluno sobre o professor?
CA - Esse é um dos campos mais novos da educação.Um pensador chileno, que está realmente em evidencia, Humberto Maturana, sempre dizia que havia referencias e cuidados com respeito a influencia do professor sobre o aluno, mas que na verdade, seres humanos são interdependentes, e da mesma maneira como num conceito, eu diria, até ecológico, que o solo depende da planta mas a planta também depende do solo. É muito difícil perceber que possa existir um e outro sem interação. Um modifica o outro, e isso é absolutamente verdadeiro em relação ao aluno para o professor. Isso não significa dizer que essa imagem esteja consciente, mas é obvio que, na maneira como somos, aquele professor que evolui o faz por forças das marcas e dos registros daquele envolvimento que ele teve com os alunos, e essa relação hoje é muito forte, muito recíproca e não é a toa que Maturana é um biólogo, porque ele tirou esse conceito da própria biologia, onde no ecossistema, A depende de B e B depende de A. E o próprio Paulo Freire já dizia isso também. É uma troca.

PM - Quais são as principais barreiras no processo do aprendizado?
CA - A principal barreira no processo do processo de aprendizagem é o professor ainda acreditar-se proprietário de um saber, cuja finalidade é transmitir aos alunos, esquecendo de identificar que esse saber se banalizou, que hoje é o encontro na Internet, que hoje eu vivo num mundo onde há múltiplos canais de televisão. Um material escolar, de maneira geral, é muito bem formado, então aquele professor repetidor de saberes, tem para cada aula aquele tema e aquela pílula, e realmente acaba sendo um professor muito pouco sedutor. Portanto ele está impondo uma barreira imensa na aprendizagem, porque está indo na contramão daquilo que realmente o aluno precisa para crescer.


PM - Para que o aluno realmente aprenda, o senhor afirma que é necessário que ele tenha liberdade interna. O que quer dizer?
CA - Ele é o agente essencial no processo de construção do seu saber. O saber não é algo que venha de fora, a aprendizagem se constrói com aquilo que eu sei e com aquilo que é colocado em relação ao meu ambiente. Então, na verdade, essa liberdade é no sentido de fazer com que o saber que o professor transmite, não pode pretender que seja o saber que o aluno adquire. Aquele saber se transforma com os saberes que o aluno tem, então, isso significa a liberdade. Cada aprendente precisa ser livre para aprender, porque ele é o agente construtor da sua própria maneira de aprender e dos próprios saberes que constrói.

PM - Para que o aluno realmente aprenda, o senhor afirma que é necessário que ele tenha liberdade interna. O que quer dizer?
CA - Ele é o agente essencial no processo de construção do seu saber. O saber não é algo que venha de fora, a aprendizagem se constrói com aquilo que eu sei e com aquilo que é colocado em relação ao meu ambiente. Então, na verdade, essa liberdade é no sentido de fazer com que o saber que o professor transmite, não pode pretender que seja o saber que o aluno adquire. Aquele saber se transforma com os saberes que o aluno tem, então, isso significa a liberdade. Cada aprendente precisa ser livre para aprender, porque ele é o agente construtor da sua própria maneira de aprender e dos próprios saberes que constrói.




sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

ENSINANDO A VIVER

De repente, no meio da aula, algum aluno se levantava e, sem pedir licença, toma para si o material escolar do colega. A cena se repete muitas vezes, assim como as agressões verbais e os episódios de bullying. Esta situação, vivida pela professora de Português Eloisa Menezes Pereira, de Porto Alegre (RS), acontece com frequência em escolas de todo o Pais. Então, para reverter esta realidade e contribuir para a construção de uma sociedade com pessoas de bem, muitos professores estão incluindo em seus planos de aula atividades relacionadas a relevância do respeito e da solidariedade. Segundo os docentes, a iniciativa traz benefícios para o ensino. Para tentar mudar o clima em sala, Eloisa pensou em uma maneira divertida e instigante de ensinar para a garotada a importância da pratica desses dois valores. Ela propôs um desafio a Turma 53 da 6º ano da Escola Estadual de Ensino Fundamental Almirante Alvaro Alberto da Motta e Silva: produzir um livro sobre os cinco sentidos, tema que ajudaria o grupo a refletir sobre as atitudes negativas repetidas dia apos dia em sala de aula. Eles toparam a ideia e, em menos de quatro meses, não apenas finalizaram a publicação, lançada no fim do ano, mas conseguiram construir um ambiente mais harmonioso na classe. Era uma turma que apresentava muitos problemas. Então, pensei em trabalhar os sentidos, para que eles se conscientizassem que a mão, por exemplo, não e para bater no colega da frente, conta a educadora, ressaltando que a melhor maneira de introduzir a discussão sobre valores dentro escola e partir da historia de vida de cada aluno, assim como do ambiente em que vivem. Neste caso, os 28 integrantes da turma, com idades entre 11 e 14 anos, moram na periferia da cidade, na Vila Cruzeiro, área carente da capital, marcada por diversos problemas sociais, inclusive a violência. Não é a toa, que nos textos e desenhos produzidos pelos alunos para o livro "Brincando com os sentidos (e-book lançado pela editora Plus), há relatos sobre pessoas solitárias que encontraram a felicidade a partir de um carinho ou de um olhar amoroso. O aluno é muito acessível e, com raríssimas exceções, novos olhares podem ser trabalhados em sala para desenvolver os valores, observa Eloisa. Respeito e bom e todo mundo gosta A opinião da professora de Porto Alegre encontra eco a mais de 4 mil quilômetros de distancia, em Fortaleza (CE). La, o professor de Historia Paulo Sergio Barros, da Escola Estadual de Ensino Médio e Fundamental Maria Jose Medeiros, lança mão de varias estratégias para formar pessoas de bem. Tudo conectado com a subjetividade, o currículo e as práticas socioculturais dos estudantes, detalha. No ano em que se comemorava os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ele propôs aos seus 105 alunos da 9º ano que elaborassem uma carta de princípios próprios. Paulo alerta para o fato de que, seja qual for a maneira escolhida para discutir o assunto na aula, é fundamental que o professor seja exemplo para a turma.Falar de valores como respeito é bom, mas será inócuo se aquele que fala não pratica. Ele também acredita que, embora o assunto precise ser trabalhado em sala e de uma forma cotidiana e consistente, a educação de valores deve, na verdade, começar em casa, ainda que vários pais se mostrem despreparados para isso. Muitas crianças chegam a escola com comportamentos lamentáveis. E quando conversamos com a família ficamos sabendo das condições sociais e morais em que eles nasceram e vivem. Por outro lado, Paulo também ve falhas na atuações das instituições de ensino. Poucos gestores e professores estão comprometidos com uma educação holística, humanitária, critica o professor, resumindo que a responsabilidade de formar pessoas de bem e, na verdade, de todos família, escola e da sociedade de uma maneira geral. O docente ainda e responsável, no Norte e Nordeste, pelo Programa Vivendo Valores na Educação (VIVE) iniciativa coordenada pela Alive, associação presente em mais de 80 países com o objetivo de propagar valores humanos e estímulos ao desenvolvimento espiritual e profissional de seus integrantes. No Brasil, o programa e desenvolvido pelo Instituto Vivendo Valores (www.vivendovalores.org.br). Outras estratégias Para os professores que já desenvolvem atividades relacionadas a educação de valores, ou mesmo para quem deseja começar agora, mais sugestões não faltam. Eloisa, por exemplo, propõe que o docente liste e comente atitudes de desrespeito menos triviais, criando regras em colaboração com a turma e expondo o resultado da discussão em cartazes afixados na classe. Em relação a solidariedade, ela cita abordar o assunto estimulando o empréstimo de material, a ajuda aos colegas em dificuldades e a cooperação na limpeza da sala. Já Paulo Sergio enumera uma serie de atividades que podem ser realizadas ao longo do ano e que poder?o gerar mudanças no comportamento dos alunos: oficinas, pesquisas, campanhas, projetos e técnicas de relaxamento. Ele, por exemplo, detectou uma melhor convivência dos estudantes com a diversidade e mais respeito (a si próprio e pelo outro). Alem disso, a disciplina em sala também melhorou. ?Eles escutam melhor o professor e sabem apreciar o que o colega diz. Eloisa também sentiu uma melhora no comportamento dos alunos, com a redução dos casos de bullying, e observa que, independentemente dos resultados no caso dos alunos mais velhos, que já trazem hábitos negativos arraigados, e preciso ?investir, acreditar, implantar?. Paulo tem pensamento semelhante. Para ele, seja qual for o nível de ensino, e essencial que a formação de valores passe, principalmente, pelo incentivo ao respeito. Reportagem divulgada na revista Profissão Mestre de abril de 2010.

sábado, 27 de agosto de 2011

Lei, palmada ou diálogo?

Palmada no passado era método pedagógico e, portanto, pais e professores tinham direito legítimo de uso. Mas os estudos evoluíram e hoje sabemos que castigo físico não garante aprendizagem. Pode até parecer que garante porque, como ninguém gosta de apanhar, inibe comportamentos inadequados mais rapidamente. Na ausência do agressor, porém, a atitude criticada reaparece. O que revela que não houve aprendizagem de fato. Portanto, a discussão não deve ser se bater deve ser proibido por lei, mas de que forma conscientizar quem educa – em todas as instâncias – de que, com objetivos claros, segurança e afeto, se conseguem melhores resultados do que com agressão física.
Se parece que nossos antepassados conseguiram mais com os jovens do que se consegue hoje, seguramente não foi porque nossos avôs batiam nos filhos... O que ocorreu foi que uma série de fatores se conjugou nas últimas décadas, tornando educar um desafio gigantesco: a influência das novas mídias exacerbando o consumismo; a corrupção (e a impunidade) por parte dos que deveriam dar o exemplo aos mais jovens; a desestruturação da família; a ausência de ambos os pais em casa são apenas alguns deles. Com isso, os pais acabaram perdendo o foco do que é realmente importante. Muitos hoje consideram sua tarefa principal “fazer o filho feliz”, o que acaba resultando em apenas satisfazer desejos e vontades. Anteriormente, era “fazer dos filhos homens de bem”, significando priorizar fundamentos éticos na educação. E isso se alcança com muito diálogo, ensinando a pensar e a não se deixar conduzir por mídias ou grupos. No entanto, é tarefa quase inexequível para quem não tem certeza do que é prioritário.
Em vez de novas leis, o que a sociedade precisa é realocar a ética – para si e para as novas gerações; também fundamental é resgatar conceitos deturpados. Afinal, autoridade não é sinônimo de autoritarismo; democracia e liberdade não significam fazer apenas o que se tem vontade. Como se ensina isso: com lei ou com palmada? Nem com um, nem com outro.
Obviamente, ainda há muito a ser feito quanto à inclusão e melhoria da qualidade do ensino, multiplicação do número de bibliotecas públicas e disseminação do hábito de leitura. No entanto, os avanços são inegáveis nos 188 anos de nossa Independência, comemorados no 7 de setembro de 2010. Em todo esse período, o livro tem sido um dos protagonistas dos processos de transformação política e social, pois a conquista do conhecimento é essencial para credenciar pessoas e povos à plena liberdade!
A nossa é a geração do diálogo, a que acreditou que a melhor forma de comunicação interpessoal se faz através da discussão e da troca de ideias. Mas será que, na prática, o diálogo está efetivamente acontecendo? Pais e filhos, professores e alunos, colegas de trabalho estão verdadeiramente sabendo ouvir, falar e reivindicar? Infelizmente, não. São muitos os que não sabem dialogar. Alguns usam o diálogo como bandeiras para alcançarem o que desejam e, em seguida, se mostram autoritários, fazendo com isso grassar a desesperança e a descrença entre os jovens. Outros o abandonam à primeira dificuldade. Entender-se de verdade com o outro, mantendo a ética e o equilíbrio frente a opiniões e objetivos contrários aos seus, é tarefa difícil - e raros são os que dominam tal competência.
Quem é autoridade e deseja exercê-la de forma a congregar, alcançar adesão e favorecer a afetividade – seja pai, chefe ou professor – deve utilizar o diálogo como forma de busca de entendimento. Todos – líderes e liderados – precisamos estar cientes, porém, de que nem sempre seremos atendidos em tudo. É o que torna o diálogo tão difícil: a expectativa utópica de que, através dele, todos os anseios se concretizem. Ocorre, porém que entendimento não é atendimento. Não se pode supor que só houve diálogo quando atendem a tudo o que desejamos; diálogo é troca, análise, decisão; não é imposição.
No diálogo verdadeiro não há vencedores nem vencidos, há, isso sim, pessoas ou grupos que se ouvem sem pré-julgamentos; há respeito recíproco e intenção concreta de analisar argumentos e reivindicações. E, mais importante: há, ao final, aceitação das decisões tomadas pelo grupo ou pela autoridade – ainda que nem sempre tais decisões contemplem, no todo ou em parte, aquilo que todos e cada um desejavam.

Texto de Tania Zagury, filósofa e mestre em Educação.
Email:tania@taniazagury.com.br

O filho do meu vizinho é um gênio !!!


Tem pai que se vangloria do filho que acessa a internet. Filho que usa o computador, liga e desliga o videogame com os olhos vendados e as mãos para trás. Mãe que exibe o filho aos seus tios e tias: nós temos internet lá em casa e o Ronaldinho, que tem apenas 9 aninhos, já sabe fazer tudo.

Mas o que significa “fazer tudo”? Imaginar que o filho do vizinho aperta todos os botões sem dificuldade é realmente um dom, um momento para celebrar, fazer um bolo e chamar os amigos? Não, não é. Nesta história que parece “O filho do meu vizinho no país das maravilhas”, uma palavra me assusta: conteúdo.

A janela ou a porta que se abre com o computador no quarto da criança ou do filho adolescente é uma entrada para o bem e para o mal. Não é função dos pais o controle do que os filhos veem pela janela? “Não abra a porta para estranhos”, não é assim que aprendemos? E o que a internet possibilita? Possibilita que se conheça pessoa que não conhecemos pessoalmente. Será que conhecemos mesmo, então? Não creia que seu filho adolescente vai se encher de um discurso franciscano ao espiar a internet. Mas não quero o discurso moralista para esta reflexão, quero o discurso da pesquisa. Ou o discurso da “falta de pesquisa”.

Fico pasmo, como economista, vendo gente sem dinheiro babando na frente de uma TV LCD, digital, de plasma. Para que comprar uma TV linda, se o conteúdo é horrível? A desculpa logo vem: é para ver melhor. Parecem as mesmas palavras que o lobo mau disse à Chapeuzinho. Ver melhor o quê? Meio sem querer, colocamos o lobo mau dentro da casa da vovozinha. Estamos comprando e assistindo máscaras. Máscaras de conteúdo.

Olhamos para um computador de penúltima geração e perguntamos: o que ele faz? Esquecemos que a pergunta correta seria: ele faz o que eu preciso? Eu preciso do que ele faz?

Por isso, penso eu, o filho do vizinho que sabe apertar um botão, navegar na internet, acessar o Google, o Toodle, está em contato com tudo o que a internet oferece. E onde está o discernimento, o espírito crítico que poderia ser desenvolvido pelos pais e outros educadores nessa oportunidade? Nessa chance desperdiçada de explicar ao jovem guri que o bem e o mal existem, que a verdade e a mentira existem, que a informação e a desinformação coexistem, que o correto e o incorreto moram juntinhos no mesmo lugar, e que, ao ler uma notícia, deve-ser ter olhos hábeis, mente desperta, mãos operantes, ouvidos que funcionam como filtros?

Comprar do jeitinho que eles estão vendendo? Senhores educadores, não dá. Num próximo texto contarei como leio jornal. Leio dois jornais todos os dias. Mas este segredinho fica para depois.

Muitos ficam abismados com o fato das gerações que habitam o planeta há menos tempo ligarem aparelhos ultramodernos, operarem tecnologia que antes não era conhecida, lidarem com botões com uma facilidade de Fred Astaire dançando pra lá e pra cá. Muitos ficam tão abismados que realmente acabam criando um abismo entre esta e aquela geração. Esquecem que sempre haverá um novo botão. Acho que arco e flecha já é tecnologia. Computador, certamente, também é. Mas arco-e-flecha pode ser usado para matar ou para se defender. O computador também. O celular também. O homem tecnológico também.

Li com os olhos cheios de lágrimas uma reportagem sobre uma garota que venceu um campeonato estúpido: quem conseguisse digitar uma mensagem no celular em menor tempo seria o vencedor. A foto vencedora se assemelhava à vitória de concurso de Miss Mundo. O Haiti caindo aos pedaços e nós aplaudindo uma guria que digita uma mensagem qualquer, mas bem rapidinho. Estou chegando à seguinte conclusão: a filha do meu vizinho também deve ser um gênio. Deve ser.

Estamos ensinando nossos nobres filhos digitais a utilizarem garfo e faca para comer direitinho, mas não estamos ensinando a eles como preparar a comida.

Artigo divulgado na Revista -Profissão Mestre de abril de 2010
César Augusto Dionísio - economista e professor e autor do livro Mais Textos: uma visão sobre a Educação

Elogio e Reconhecimento

Esse é o título do artigo publicado na revista Indústria de Minas, da Fiemg, por Eloi Zanetti, especialista em marketing e comunicação corporativa. É impressionante as semelhanças que encontramos do relato com as situações da nossa vida no dia a dia. Diz o artigo que Akira Kurosawa, hoje cineasta, era considerado por todos e até por ele próprio um “completo imbecil”. Era uma pessoa totalmente inexpressiva durante sua vida de infância e até a adolescência.
Mas foi um professor de Arte que, vendo um de seus trabalhos na sala de aula, teceu alguns comentários colocando-o em destaque na sua turma e enaltecendo suas qualidades, até então nem vistas por ele, com “demorados elogios”. Foi o bastante para ele se enxergar e dar um rumo à sua vida, e carregar consigo aquele elogio, e passou a fazer tudo por merecê-lo.
São inúmeras as situações que encontramos em que as pessoas debocham de colegas e amigos inibindo um potencial que poderia ser desenvolvido. Também são inúmeras as oportunidades que temos de tecer comentários elogiosos às pessoas que nos cercam e que poderiam, como o professor de Arte de Kurosawa, ser o norte para muitos, e infelizmente não nos damos conta disso.
Na maioria das vezes é preciso que alguém perceba as qualidades ou mesmo o potencial de alguém, que possa ser desenvolvido, e teça um elogio demonstrando um reconhecimento de um aspecto positivo da pessoa.
Conta-se no artigo em questão que, estando o autor viajando pelo interior do Paraná na companhia do músico Luiz Gonzaga, o rei do baião, durante uma breve parada numa churrascaria de beira de estrada, Luiz Gonzaga perguntou ao garçom que o serviu, em voz alta: “Moço, você é o dono do estabelecimento, não é?” Recebendo um não, obviamente já percebido pelo músico, mas este ainda disse: “É, mas não vai demorar muito e você vai ter a sua própria churrascaria. Tenho observado o seu trabalho, e você tem tudo para ser o dono do seu próprio negócio.”
Agora, imagine o garçom recebendo um elogio desses em público e ainda mais por uma figura como Luiz Gonzaga!
É interessante também notar que até uma certa fase de nossas vidas não conseguimos enxergar as oportunidades que nos cercam ou mesmo o meio em que estamos. O adolescente, na maioria das vezes, volta-se para questões irrelevantes próprias de sua idade e nos faz pensar: como é possível que ele não perceba a importância de certas coisas que nós, pais ou professores ou mesmo como simples adultos, queremos que ele valorize?
Quando adultos nos tornamos profissionais e especialistas em algum tipo de atividade, mas se não formos notados enquanto alunos e adolescentes também seremos como o cineasta: invisíveis aos olhos dos outros. Devemos praticar essa não tão difícil atitude do professor de Arte: elogiar as pessoas mostrando a elas e a todos o seu lado positivo. Vamos ajudar muita gente a encontrar seu caminho.

Texto de Carlos Antônio dos Santos, professor de Física e Matemática, enviado ao Jornal Virtual.

domingo, 19 de setembro de 2010

Asas da imaginação

Imaginário é importante para o desenvolvimento infantil, ele é o caminho que faz com que a pessoa descubra uma determinada situação sem ter que vive-la de fato. É uma outra dimensão com que as crianças têm de lidar desde cedo. O imaginário delas ainda é concreto.Elas precisam humanizar as figuras: bola tem carinha de gente. Normalmente uma criança aprende copiando modelos e, depois praticando. Essa prática é aquela que vai dar a experiência que ela precisa. Por exemplo, qualquer criancinha que vista a roupa do Homem – Aranha solta o imaginário do Homem – Aranha , finge que joga teia, vai viver como o personagem. È uma espécie de experimentação da sensação sem viver nada de fato, só está exercitando a mente e ganhando experiência.
O papel dos pais é estimular, contar histórias gostosas, com heróis bons , anti-heróis , coisas nessa linha que façam o pequeno aprender a ideia do que é bom e o ruim são tão atraentes que estão deixando as pessoas confusas. Não é difícil encontrar a crianças que admirem vilões.
Isto está acontecendo porque a criança que não tem valores quer fazer o que mais impressiona. Nas telenovelas, os bandidos são heróis. Isso também acontece nas revistas em quadrinhos, jogos de videogame, desenhos animados .... Os bandidos tem tanto poder quanto os mocinhos. Mas a maioria das crianças bem formadas quer ser do bem.São pontos que levam a gente a pensar em como ajudar a organizar esses valores que a pessoa tem que ter . A fantasia é ótima para estabelecer padrões.
O imaginário também tem uma função pedagógica , pelo imaginário a gente pode ensinar muitas coisas ás pessoas. È algo que só os seres humanos tem. Uma das maneiras de passar histórias, valores, situações, juízo, fazer estudar. A criança também vai prospectar o futuro, imaginando que quem estuda tem sucesso na vida . Por meio do imaginário, os pais podem estimular o filho a ser mais cidadão, coisa que ele não teria se só tivesse que obedecer ordens.
O imaginário contribui para auto-estima , ele faz a criança “ viver “ determinada situação e sentir confiança em sua imaginação, acreditar que ela é capaz, boazinha. Ela se sente bem com isso. A auto-estima é se gostar, é ser aprovada por si mesma. São coisas que ninguém consegue colocar em uma pessoa, ela tem que desenvolver por si mesma.
Hoje em dia as crianças estão perdendo o hábito de brincar ao ar livre. Isso é um grande prejuízo para elas, porque o espaço é tão limitado á cadeira e só estão exercitando o lado metal . Daqui algum tempo , é como se o cérebro ficasse grande; e o corpo, pequenininho. É preciso entender que a diversão está no ato de fazer junto e não simplesmente ficar vendo o mundo passar pela telinha. Com a brincadeira ao ar livre, a gente cresce mais saudável, desenvolvendo o corpo e a mente.
( Dr. Içami Tiba psiquiatra e educacionista – Revista DIVA 2009)

Apagão de mão de obra, um pacto à mediocridade

De acordo com dados do Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (Ipea), em 2008 havia mais oferta de emprego para quem tem mais escolaridade. A concentração das vagas estava nos trabalhadores com uma média de 11 anos de estudos. Hoje, no Brasil, são necessários 12 anos de estudo para completar toda a educação básica – o ensino fundamental e o médio. No entanto, entre os jovens brasileiros de 18 a 24 anos, a média de escolaridade é de 9,1 anos de estudo.
Dados como esses nos fazem pensar, refletir e analisar o papel da escola para com o futuro das nossas crianças: preparamos os jovens de hoje para o quê no futuro? Talvez, a resposta mais adequada seria para uma vida adulta produtiva e responsável. Um ser humano adulto, para ser feliz e realizado, precisa estar de bem em três grandes áreas da vida que vou chamar de mundos: o mundo da família, o formado pela sociedade (amigos, colegas, igreja, etc.) e o do trabalho.
Muito bem, vamos ao mundo da família. Que tipo de exemplo nós adultos estamos dando para os jovens? Respeito, união, comunhão. Ou o exemplo são brigas, separações, pais usando os filhos para se beneficiar? E no mundo social, que exemplos estamos dando? Temos amigos de verdade, respeitamos os outros? Como preparar um jovem para qualquer um desses mundos se eles não podem viver, experimentar, aprender?.
Pergunto ainda: será que é possível uma vida adulta sem o mundo do trabalho? Feliz, eu duvido. A preparação dos jovens para a vida adulta é tão complexa que é tarefa para uma tribo, mas no Brasil delegamos totalmente à escola.
Há 20 anos, tínhamos crianças sendo exploradas sexualmente, trabalhando em carvoarias, cortando cana, quebrando pedra, vendendo coisas nas ruas. Criamos um monte de leis, genéricas, mas não definimos o que é criança, o que é trabalho, nem separamos o trabalho pedagógico que desenvolve habilidades do trabalho degradante. Hoje, temos a mesma realidade, a mesma exploração das crianças, e mais 34 milhões de jovens fora da escola e sem trabalho. Temos, sim, 98% das crianças brasileiras iniciando o ensino fundamental, mas, de cada 100 que entram na 1ª série, 50 crianças chegam a 5ª sem saber ler um texto de 5 linhas e contar o que leu, ou seja, analfabetos funcionais; 40 abandonam a escola antes de terminar a 8ª série porque não conseguem acompanhar a segunda etapa do ensino fundamental que requer interpretação e, por não acompanhar, abandonam a escola.
Em um passado não muito distante, a partir dos 12 anos, a criança acompanhava o pai no contra turno para aprender o ofício da família. Se gostava de estudar e o pai era pedreiro, eletricista, agricultor, o filho tornava-se engenheiro, agrônomo, etc. Se não gostasse de estudar, tornava-se um mestre de obra, agricultor como o pai, mas tinha trabalho, e sabia trabalhar...

Texto de Ademar Batista Pereira, presidente das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe/PR)