sábado, 27 de agosto de 2011

Lei, palmada ou diálogo?

Palmada no passado era método pedagógico e, portanto, pais e professores tinham direito legítimo de uso. Mas os estudos evoluíram e hoje sabemos que castigo físico não garante aprendizagem. Pode até parecer que garante porque, como ninguém gosta de apanhar, inibe comportamentos inadequados mais rapidamente. Na ausência do agressor, porém, a atitude criticada reaparece. O que revela que não houve aprendizagem de fato. Portanto, a discussão não deve ser se bater deve ser proibido por lei, mas de que forma conscientizar quem educa – em todas as instâncias – de que, com objetivos claros, segurança e afeto, se conseguem melhores resultados do que com agressão física.
Se parece que nossos antepassados conseguiram mais com os jovens do que se consegue hoje, seguramente não foi porque nossos avôs batiam nos filhos... O que ocorreu foi que uma série de fatores se conjugou nas últimas décadas, tornando educar um desafio gigantesco: a influência das novas mídias exacerbando o consumismo; a corrupção (e a impunidade) por parte dos que deveriam dar o exemplo aos mais jovens; a desestruturação da família; a ausência de ambos os pais em casa são apenas alguns deles. Com isso, os pais acabaram perdendo o foco do que é realmente importante. Muitos hoje consideram sua tarefa principal “fazer o filho feliz”, o que acaba resultando em apenas satisfazer desejos e vontades. Anteriormente, era “fazer dos filhos homens de bem”, significando priorizar fundamentos éticos na educação. E isso se alcança com muito diálogo, ensinando a pensar e a não se deixar conduzir por mídias ou grupos. No entanto, é tarefa quase inexequível para quem não tem certeza do que é prioritário.
Em vez de novas leis, o que a sociedade precisa é realocar a ética – para si e para as novas gerações; também fundamental é resgatar conceitos deturpados. Afinal, autoridade não é sinônimo de autoritarismo; democracia e liberdade não significam fazer apenas o que se tem vontade. Como se ensina isso: com lei ou com palmada? Nem com um, nem com outro.
Obviamente, ainda há muito a ser feito quanto à inclusão e melhoria da qualidade do ensino, multiplicação do número de bibliotecas públicas e disseminação do hábito de leitura. No entanto, os avanços são inegáveis nos 188 anos de nossa Independência, comemorados no 7 de setembro de 2010. Em todo esse período, o livro tem sido um dos protagonistas dos processos de transformação política e social, pois a conquista do conhecimento é essencial para credenciar pessoas e povos à plena liberdade!
A nossa é a geração do diálogo, a que acreditou que a melhor forma de comunicação interpessoal se faz através da discussão e da troca de ideias. Mas será que, na prática, o diálogo está efetivamente acontecendo? Pais e filhos, professores e alunos, colegas de trabalho estão verdadeiramente sabendo ouvir, falar e reivindicar? Infelizmente, não. São muitos os que não sabem dialogar. Alguns usam o diálogo como bandeiras para alcançarem o que desejam e, em seguida, se mostram autoritários, fazendo com isso grassar a desesperança e a descrença entre os jovens. Outros o abandonam à primeira dificuldade. Entender-se de verdade com o outro, mantendo a ética e o equilíbrio frente a opiniões e objetivos contrários aos seus, é tarefa difícil - e raros são os que dominam tal competência.
Quem é autoridade e deseja exercê-la de forma a congregar, alcançar adesão e favorecer a afetividade – seja pai, chefe ou professor – deve utilizar o diálogo como forma de busca de entendimento. Todos – líderes e liderados – precisamos estar cientes, porém, de que nem sempre seremos atendidos em tudo. É o que torna o diálogo tão difícil: a expectativa utópica de que, através dele, todos os anseios se concretizem. Ocorre, porém que entendimento não é atendimento. Não se pode supor que só houve diálogo quando atendem a tudo o que desejamos; diálogo é troca, análise, decisão; não é imposição.
No diálogo verdadeiro não há vencedores nem vencidos, há, isso sim, pessoas ou grupos que se ouvem sem pré-julgamentos; há respeito recíproco e intenção concreta de analisar argumentos e reivindicações. E, mais importante: há, ao final, aceitação das decisões tomadas pelo grupo ou pela autoridade – ainda que nem sempre tais decisões contemplem, no todo ou em parte, aquilo que todos e cada um desejavam.

Texto de Tania Zagury, filósofa e mestre em Educação.
Email:tania@taniazagury.com.br

O filho do meu vizinho é um gênio !!!


Tem pai que se vangloria do filho que acessa a internet. Filho que usa o computador, liga e desliga o videogame com os olhos vendados e as mãos para trás. Mãe que exibe o filho aos seus tios e tias: nós temos internet lá em casa e o Ronaldinho, que tem apenas 9 aninhos, já sabe fazer tudo.

Mas o que significa “fazer tudo”? Imaginar que o filho do vizinho aperta todos os botões sem dificuldade é realmente um dom, um momento para celebrar, fazer um bolo e chamar os amigos? Não, não é. Nesta história que parece “O filho do meu vizinho no país das maravilhas”, uma palavra me assusta: conteúdo.

A janela ou a porta que se abre com o computador no quarto da criança ou do filho adolescente é uma entrada para o bem e para o mal. Não é função dos pais o controle do que os filhos veem pela janela? “Não abra a porta para estranhos”, não é assim que aprendemos? E o que a internet possibilita? Possibilita que se conheça pessoa que não conhecemos pessoalmente. Será que conhecemos mesmo, então? Não creia que seu filho adolescente vai se encher de um discurso franciscano ao espiar a internet. Mas não quero o discurso moralista para esta reflexão, quero o discurso da pesquisa. Ou o discurso da “falta de pesquisa”.

Fico pasmo, como economista, vendo gente sem dinheiro babando na frente de uma TV LCD, digital, de plasma. Para que comprar uma TV linda, se o conteúdo é horrível? A desculpa logo vem: é para ver melhor. Parecem as mesmas palavras que o lobo mau disse à Chapeuzinho. Ver melhor o quê? Meio sem querer, colocamos o lobo mau dentro da casa da vovozinha. Estamos comprando e assistindo máscaras. Máscaras de conteúdo.

Olhamos para um computador de penúltima geração e perguntamos: o que ele faz? Esquecemos que a pergunta correta seria: ele faz o que eu preciso? Eu preciso do que ele faz?

Por isso, penso eu, o filho do vizinho que sabe apertar um botão, navegar na internet, acessar o Google, o Toodle, está em contato com tudo o que a internet oferece. E onde está o discernimento, o espírito crítico que poderia ser desenvolvido pelos pais e outros educadores nessa oportunidade? Nessa chance desperdiçada de explicar ao jovem guri que o bem e o mal existem, que a verdade e a mentira existem, que a informação e a desinformação coexistem, que o correto e o incorreto moram juntinhos no mesmo lugar, e que, ao ler uma notícia, deve-ser ter olhos hábeis, mente desperta, mãos operantes, ouvidos que funcionam como filtros?

Comprar do jeitinho que eles estão vendendo? Senhores educadores, não dá. Num próximo texto contarei como leio jornal. Leio dois jornais todos os dias. Mas este segredinho fica para depois.

Muitos ficam abismados com o fato das gerações que habitam o planeta há menos tempo ligarem aparelhos ultramodernos, operarem tecnologia que antes não era conhecida, lidarem com botões com uma facilidade de Fred Astaire dançando pra lá e pra cá. Muitos ficam tão abismados que realmente acabam criando um abismo entre esta e aquela geração. Esquecem que sempre haverá um novo botão. Acho que arco e flecha já é tecnologia. Computador, certamente, também é. Mas arco-e-flecha pode ser usado para matar ou para se defender. O computador também. O celular também. O homem tecnológico também.

Li com os olhos cheios de lágrimas uma reportagem sobre uma garota que venceu um campeonato estúpido: quem conseguisse digitar uma mensagem no celular em menor tempo seria o vencedor. A foto vencedora se assemelhava à vitória de concurso de Miss Mundo. O Haiti caindo aos pedaços e nós aplaudindo uma guria que digita uma mensagem qualquer, mas bem rapidinho. Estou chegando à seguinte conclusão: a filha do meu vizinho também deve ser um gênio. Deve ser.

Estamos ensinando nossos nobres filhos digitais a utilizarem garfo e faca para comer direitinho, mas não estamos ensinando a eles como preparar a comida.

Artigo divulgado na Revista -Profissão Mestre de abril de 2010
César Augusto Dionísio - economista e professor e autor do livro Mais Textos: uma visão sobre a Educação

Elogio e Reconhecimento

Esse é o título do artigo publicado na revista Indústria de Minas, da Fiemg, por Eloi Zanetti, especialista em marketing e comunicação corporativa. É impressionante as semelhanças que encontramos do relato com as situações da nossa vida no dia a dia. Diz o artigo que Akira Kurosawa, hoje cineasta, era considerado por todos e até por ele próprio um “completo imbecil”. Era uma pessoa totalmente inexpressiva durante sua vida de infância e até a adolescência.
Mas foi um professor de Arte que, vendo um de seus trabalhos na sala de aula, teceu alguns comentários colocando-o em destaque na sua turma e enaltecendo suas qualidades, até então nem vistas por ele, com “demorados elogios”. Foi o bastante para ele se enxergar e dar um rumo à sua vida, e carregar consigo aquele elogio, e passou a fazer tudo por merecê-lo.
São inúmeras as situações que encontramos em que as pessoas debocham de colegas e amigos inibindo um potencial que poderia ser desenvolvido. Também são inúmeras as oportunidades que temos de tecer comentários elogiosos às pessoas que nos cercam e que poderiam, como o professor de Arte de Kurosawa, ser o norte para muitos, e infelizmente não nos damos conta disso.
Na maioria das vezes é preciso que alguém perceba as qualidades ou mesmo o potencial de alguém, que possa ser desenvolvido, e teça um elogio demonstrando um reconhecimento de um aspecto positivo da pessoa.
Conta-se no artigo em questão que, estando o autor viajando pelo interior do Paraná na companhia do músico Luiz Gonzaga, o rei do baião, durante uma breve parada numa churrascaria de beira de estrada, Luiz Gonzaga perguntou ao garçom que o serviu, em voz alta: “Moço, você é o dono do estabelecimento, não é?” Recebendo um não, obviamente já percebido pelo músico, mas este ainda disse: “É, mas não vai demorar muito e você vai ter a sua própria churrascaria. Tenho observado o seu trabalho, e você tem tudo para ser o dono do seu próprio negócio.”
Agora, imagine o garçom recebendo um elogio desses em público e ainda mais por uma figura como Luiz Gonzaga!
É interessante também notar que até uma certa fase de nossas vidas não conseguimos enxergar as oportunidades que nos cercam ou mesmo o meio em que estamos. O adolescente, na maioria das vezes, volta-se para questões irrelevantes próprias de sua idade e nos faz pensar: como é possível que ele não perceba a importância de certas coisas que nós, pais ou professores ou mesmo como simples adultos, queremos que ele valorize?
Quando adultos nos tornamos profissionais e especialistas em algum tipo de atividade, mas se não formos notados enquanto alunos e adolescentes também seremos como o cineasta: invisíveis aos olhos dos outros. Devemos praticar essa não tão difícil atitude do professor de Arte: elogiar as pessoas mostrando a elas e a todos o seu lado positivo. Vamos ajudar muita gente a encontrar seu caminho.

Texto de Carlos Antônio dos Santos, professor de Física e Matemática, enviado ao Jornal Virtual.

domingo, 19 de setembro de 2010

Asas da imaginação

Imaginário é importante para o desenvolvimento infantil, ele é o caminho que faz com que a pessoa descubra uma determinada situação sem ter que vive-la de fato. É uma outra dimensão com que as crianças têm de lidar desde cedo. O imaginário delas ainda é concreto.Elas precisam humanizar as figuras: bola tem carinha de gente. Normalmente uma criança aprende copiando modelos e, depois praticando. Essa prática é aquela que vai dar a experiência que ela precisa. Por exemplo, qualquer criancinha que vista a roupa do Homem – Aranha solta o imaginário do Homem – Aranha , finge que joga teia, vai viver como o personagem. È uma espécie de experimentação da sensação sem viver nada de fato, só está exercitando a mente e ganhando experiência.
O papel dos pais é estimular, contar histórias gostosas, com heróis bons , anti-heróis , coisas nessa linha que façam o pequeno aprender a ideia do que é bom e o ruim são tão atraentes que estão deixando as pessoas confusas. Não é difícil encontrar a crianças que admirem vilões.
Isto está acontecendo porque a criança que não tem valores quer fazer o que mais impressiona. Nas telenovelas, os bandidos são heróis. Isso também acontece nas revistas em quadrinhos, jogos de videogame, desenhos animados .... Os bandidos tem tanto poder quanto os mocinhos. Mas a maioria das crianças bem formadas quer ser do bem.São pontos que levam a gente a pensar em como ajudar a organizar esses valores que a pessoa tem que ter . A fantasia é ótima para estabelecer padrões.
O imaginário também tem uma função pedagógica , pelo imaginário a gente pode ensinar muitas coisas ás pessoas. È algo que só os seres humanos tem. Uma das maneiras de passar histórias, valores, situações, juízo, fazer estudar. A criança também vai prospectar o futuro, imaginando que quem estuda tem sucesso na vida . Por meio do imaginário, os pais podem estimular o filho a ser mais cidadão, coisa que ele não teria se só tivesse que obedecer ordens.
O imaginário contribui para auto-estima , ele faz a criança “ viver “ determinada situação e sentir confiança em sua imaginação, acreditar que ela é capaz, boazinha. Ela se sente bem com isso. A auto-estima é se gostar, é ser aprovada por si mesma. São coisas que ninguém consegue colocar em uma pessoa, ela tem que desenvolver por si mesma.
Hoje em dia as crianças estão perdendo o hábito de brincar ao ar livre. Isso é um grande prejuízo para elas, porque o espaço é tão limitado á cadeira e só estão exercitando o lado metal . Daqui algum tempo , é como se o cérebro ficasse grande; e o corpo, pequenininho. É preciso entender que a diversão está no ato de fazer junto e não simplesmente ficar vendo o mundo passar pela telinha. Com a brincadeira ao ar livre, a gente cresce mais saudável, desenvolvendo o corpo e a mente.
( Dr. Içami Tiba psiquiatra e educacionista – Revista DIVA 2009)

Apagão de mão de obra, um pacto à mediocridade

De acordo com dados do Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (Ipea), em 2008 havia mais oferta de emprego para quem tem mais escolaridade. A concentração das vagas estava nos trabalhadores com uma média de 11 anos de estudos. Hoje, no Brasil, são necessários 12 anos de estudo para completar toda a educação básica – o ensino fundamental e o médio. No entanto, entre os jovens brasileiros de 18 a 24 anos, a média de escolaridade é de 9,1 anos de estudo.
Dados como esses nos fazem pensar, refletir e analisar o papel da escola para com o futuro das nossas crianças: preparamos os jovens de hoje para o quê no futuro? Talvez, a resposta mais adequada seria para uma vida adulta produtiva e responsável. Um ser humano adulto, para ser feliz e realizado, precisa estar de bem em três grandes áreas da vida que vou chamar de mundos: o mundo da família, o formado pela sociedade (amigos, colegas, igreja, etc.) e o do trabalho.
Muito bem, vamos ao mundo da família. Que tipo de exemplo nós adultos estamos dando para os jovens? Respeito, união, comunhão. Ou o exemplo são brigas, separações, pais usando os filhos para se beneficiar? E no mundo social, que exemplos estamos dando? Temos amigos de verdade, respeitamos os outros? Como preparar um jovem para qualquer um desses mundos se eles não podem viver, experimentar, aprender?.
Pergunto ainda: será que é possível uma vida adulta sem o mundo do trabalho? Feliz, eu duvido. A preparação dos jovens para a vida adulta é tão complexa que é tarefa para uma tribo, mas no Brasil delegamos totalmente à escola.
Há 20 anos, tínhamos crianças sendo exploradas sexualmente, trabalhando em carvoarias, cortando cana, quebrando pedra, vendendo coisas nas ruas. Criamos um monte de leis, genéricas, mas não definimos o que é criança, o que é trabalho, nem separamos o trabalho pedagógico que desenvolve habilidades do trabalho degradante. Hoje, temos a mesma realidade, a mesma exploração das crianças, e mais 34 milhões de jovens fora da escola e sem trabalho. Temos, sim, 98% das crianças brasileiras iniciando o ensino fundamental, mas, de cada 100 que entram na 1ª série, 50 crianças chegam a 5ª sem saber ler um texto de 5 linhas e contar o que leu, ou seja, analfabetos funcionais; 40 abandonam a escola antes de terminar a 8ª série porque não conseguem acompanhar a segunda etapa do ensino fundamental que requer interpretação e, por não acompanhar, abandonam a escola.
Em um passado não muito distante, a partir dos 12 anos, a criança acompanhava o pai no contra turno para aprender o ofício da família. Se gostava de estudar e o pai era pedreiro, eletricista, agricultor, o filho tornava-se engenheiro, agrônomo, etc. Se não gostasse de estudar, tornava-se um mestre de obra, agricultor como o pai, mas tinha trabalho, e sabia trabalhar...

Texto de Ademar Batista Pereira, presidente das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe/PR)

Tempo de Escolher

Tom Coelho

Muitos amigos leitores têm solicitado minha opinião acerca de qual rumo dar às suas carreiras. Alguns apreciam seu trabalho, mas não a empresa onde estão. Outros admiram a harmonia conquistada, mas não têm qualquer prazer no exercício de suas atividades. Uns recebem propostas para mudar de emprego, financeiramente desfavoráveis, porém desafiadoras. Outros têm diante de si um vasto leque de opções, muitas coisas por fazer, mas não conseguem abraçar a tudo.
Todas estas pessoas têm algo em comum: a necessidade premente de escolhas. Lembro-me de Clarice Lispector: “Entre o sim e o não, só existe um caminho: escolher”.
Acredito que quase todas as pessoas passam ao longo de sua trajetória pelo “dilema da virada”. Um momento especial em que uma decisão específica e irrevogável tem que ser tomada apenas porque a vida não pode continuar como está. Algumas pessoas passam por isso aos 15 anos, outras, aos 50. Algumas talvez nunca tomem esta decisão, e outras o façam várias vezes no decorrer de sua existência.
Fazer escolhas implica renunciar a alguns desejos para viabilizar outros. Você troca segurança por desafio, dinheiro por satisfação, o pouco certo ao muito duvidoso. Assim, uma companhia que lhe oferece estabilidade com apatia pode dar lugar a uma dotada de instabilidade com ousadia. Analogamente, a aventura de uma vida de solteiro pode ceder espaço ao conforto de um casamento.

Prazer e Vocação

Os anos ensinaram-me algumas lições. A primeira delas vem de Leonardo da Vinci que dizia: “A sabedoria da vida não está em fazer aquilo que se gosta, mas em gostar daquilo que se faz”. Sempre imaginei que fosse o contrário. Porém, refletindo, passei a compreender que quando estimamos aquilo que fazemos, podemos nos sentir completos, satisfeitos e plenos, ao passo que se apenas procurarmos fazer o que gostamos, sempre estaremos numa busca insaciável, porque o que gostamos hoje não será o mesmo que prezaremos amanhã. Todavia, é indiscutível a importância de alinhar o prazer às nossas aptidões. Encontrar o talento que reside dentro de cada um de nós ao que chamamos vocação. Oriunda do latim vocatione, e traduzida literalmente por “chamado”, simboliza uma espécie de predestinação imanente a cada pessoa, algo revestido de certa magia e divindade. Uma voz imaginária que soa latente, capaz de converter advogados em músicos, fazer engenheiros virarem suco. É um lugar no tempo e no espaço onde a felicidade tem sua morada.
Escolhas são feitas com base em nossas preferências. E aí torno a recorrer à etimologia para descobrir que o verbo “preferir” vem do latim praeferere e significa “levar à frente”. Parece-me uma indicação clara de que nossas escolhas devem ser feitas com os olhos no futuro, no uso de nosso livre-arbítrio.
O mundo corporativo nos reserva muitas armadilhas. Trocar de empresa ou mudar de atribuição, por exemplo, são convites permanentes. O problema de recusá-los é passar o resto da vida se perguntando: “O que teria acontecido se eu tivesse aceitado?”. Prefiro não carregar comigo o benefício da dúvida. Por isso, opto por assumir riscos calculados e seguir adiante. Somos livres para escolher, porém prisioneiros das consequências.
Para aqueles insatisfeitos com seu ambiente de trabalho, uma alternativa à mudança de empresa é postular a melhoria do ambiente interno atual. Dialogar e apresentar propostas são um bom caminho. De nada adianta assumir uma postura defensiva e crítica. Lembre-se de que as pessoas não estão contra você, mas a favor delas.
Por fim, combata a mediocridade em todas as suas vertentes. A mediocridade de trabalhos desconectados com sua vocação, de empresas que não lhe valorizam, de relacionamentos falidos. Sob este aspecto, como diria Tolstoi, “Não se pode ser bom pela metade”. Meias-palavras, meias-verdades, mentiras inteiras, meio caminho para o fim.
Os gregos não escreviam obituários. Quando um homem morria, faziam uma pergunta: “Ele viveu com paixão?”. Qual seria a resposta para você?
”Um homem não é grande pelo que faz, mas pelo que renuncia.” (Albert Schweitzer)

TAREFA DE CASA

O verdadeiro significado da aprendizagem

A aprendizagem é um fenômeno cerebral que envolve intensa atividade das células nervosas, pode ser entendida como um complexo processo de aquisição de conhecimento, levando a modificação de comportamento do aprendente.
Trata-se da habilidade mais fundamental e essencial da espécie humana pois é ela que garante a sobrevivência de seus membros .Enquanto os animais sobrevivem guiados pelos instintos, nós o fazemos apoiados na aquisição de conhecimentos. Até os impulsos desencadeados pelos nossos instintos devem ser aprendidos. Aprendemos como comer, como nos defender, como dormir, como procriar ....Podemos afirmar com segurança que o bebê é programado para aprender, começando com o mamar e terminando com a morte. A vida é um longo , ilimitado e infindável aprender

Inspirados nas colocações de Jean Piaget, que fala da aprendizagem em termos de assimilação, acomodação e equilibração, podemos fazer a seguinte leitura neuropsicológica destes sete passos:

1. Ter necessidade desejo, interesse, motivação para aprender.
2. Encontrar o assunto, a matéria, a leitura, o programa..
3. Captar tais informações através dos sentidos que as encaminham para as áreas especificas, assistindo aula, lendo livro, vendo filme...tudo isso com atenção bem focalizada.
4. Processar inicialmente este conteúdo, quando zonas cerebrais fazem o primeiro reconhecimento da informação que está chegando.
5. O cérebro procura tornar significativo aquele assunto, prestando especial atenção aos conteúdos que se ajustam aos interesses e motivações.
6. O cérebro seleciona o que deverá ser armazenado e elimina o que não é significativo.
7. Finalmente a informação é assimilada, ou seja , ocorre a aprendizagem.Toda e qualquer aprendizagem se converte, de imediato, em abertura ou vontade de novo conhecimento.

Não “se aprende” em sala de aula

Analisando mais intimamente esse passos dentro da educação formal, percebemos que a presença do professor é imprescindível e essencial apenas nos itens 2 e 3, pois incumbe a ele a escolha do assunto da aula (2) e o uso das estratégias pedagógicas (3) para garantir o máximo de atenção do aluno. Já nos passos 1 e 4 sua importância é secundária .Quem deve ter vontade e fome de aprender é o discípulo- trata-se da motivação intrínseca.
Se ela não tiver em grau mínimo que seja, qualquer esforço ou tática do docente
Será em vão , o que sintetiza .
Contudo desinteresse não seja total, cabe ao professor usar de todos os seus trunfos de motivador extrínseco para incentivar e facilitar o processo (4) , que já consiste em uma tarefa interna .
Os passo seguintes – exigem um longo processo que somente chegara a assimilação final durante uma boa noite de sono. Descobertas recentes já comprovam que durante a fase do sono chamado lento, o conteúdo do hipocampo , a área nervosa cituada no meio do cérebro e sede da memória recente, é encaminhado para o cótex central, centro nervoso onde ocorre a memória de longo prazo, onde acontece a consolidação da verdadeira aprendizagem . Por isto o aluno em sala de aula ele capte a mensagem que deposita na memória de curto prazo. Para efetivar a aprendizagem ele deverá rever e retomar esta primeira informação realizando exercícios de consolidação.
Daí, onde podemos concluir que : A tarefa de casa é uma atividade pedagógica imprescindível para que ocorra a assimilação cerebral do assunto estudado , a que comumente chamamos aprendizagem.

Caro pai, acompanhe e oriente o dever de casa de seu filho. Mas deixe –o resolver os problemas com o seu próprio esforço. E você verá alegria e o imenso prazer que ele sentirá ao alcançar a verdadeira aprendizagem.

Meu professor amigo, suas boas aulas são o início do jogo.Seja o grande motivador para que seus alunos façam as tarefas e marque o gol da vitória – a aprendizagem almejada.

Egídio Romanelli - Doutor em neuropsicologia