Marcelo Miranda
O post de hoje é um bate papo com Eline Kullock, presidente do Grupo Foco e especialista em RH e geração Y. Muitos defendem que a geração Y tem características e comportamentos diferentes no mercado de trabalho diferentes de outras gerações, outros defendem que são como qualquer geração jovem que chegou ao mercado de trabalho. Estudiosa do tema, nas suas respostas Eline dá valiosas dicas e conselhos aos jovens sobre caminhos a seguir neste mercado de trabalho de tantas mudanças e incertezas.
Entrevista com Eline Kullock

Marcelo Miranda – Eline, você é especialista em geração Y. Quais as características principais desta geração?
Eline Kullock – Esta geração tem um modelo mental diferente de outras gerações. Se verificarmos em termos de história, nossa geração Y ( falo de Brasil) encontrou um Brasil democrático, BRIC, com uma inflação pequena ( dizem…) com pleno emprego. Foi educado por uma geração que estava cansada do momento autocrático, que saiu as ruas pelo fim da ditadura, que presava o conceito de “paz e amor”. Cresceu num momento em que o tamanho das famílias diminuiu e cada família pode dar mais atenção aos seus filhos. Viveu num momento onde os educadores e sociólogos diziam para que seus pais e a escola não “castrasse o potencial criativo dos seus filhos e alunos. Puderam questionar seus pais, argumentar, discordar. Em função da tecnologia exponencial desenvolvida enquanto cresceram, passaram a ensinar os pais a lidar com os novos “gadgets” do mercado e por isso mesmo se sentiram mais “pares” dos seus pais, e menos “filhos”. Com tudo isso, é uma geração que aprende com seus pares, que aprende na base da tentativa e erro, que toma decisões mais rapidamente ( porque está acostumado a tomar decisões nos jogos eletrônicos), que funcionam melhor em grupo. Ao mesmo tempo não tem resistência a frustração, não lidam bem com autoridade, está acostumada a funcionar num modelo que, quando as cosas não funcionam, é possível adotar o modelo “delete and restart”.
Marcelo Miranda – Na sua opinião como o jovem com essas características pode se sobressair na carreira? Quais os comportamentos que você avalia que podem ser favoráveis?
Eline Kullock – Esse jovem é corajoso e curioso. Questiona as ordens, não aceita facilmente as opiniões dos outros. Aprendeu em casa que questionar é possível. Da mesma forma, vai questionar mais as ordens e instruções. Embora isso seja cansativo pra sua chefia pode, a médio prazo, ser uma atitude melhor pra empresa, que se renova com os questionamentos. O jovem da geração Y toma decisões de forma mais rápida que outras gerações, também influenciado pelos jogos eletrônicos e pela velocidade da tecnologia, de forma geral. Isto é pré requisito fundamental nesses novos tempos, onde temos mais variáveis na equação das organizações e onde lançar mais rapidamente um produto ou serviço pode ser determinante. Se ele questionar sem destruir ( às vezes este jovem não sabe bem como colocar suas insatisfações ou questionamentos e pode ser agressivo), se ele souber entrar com argumentos consistentes, se souber a hora certa de fazer os questionamentos, ele pode agregar muito para as organizações. Ele certamente vai trabalhar bem em times, porque sempre agiu assim e conviveu em times quer virtualmente quer presencialmente. Vemos, nesses movimentos de questionamentos da população, a vontade de trabalhar e fazer as reivindicações sem um líder claro. Todos são iguais. Não se aceitam partidos ou pessoas que queiram assumir a liderança do povo. O poder é compartilhado, Certamente ele será mais democrático nas organizações.
Marcelo Miranda – Como o jovem deve fazer para saber se relacionar com as outras gerações? Como transitar bem? Como reportar para outras gerações?
Eline Kullock – A primeira coisa para saber se relacionar bem com outra geração é reconhecer que há modelos mentais diferentes. Compreender que o outro é diferente, pela forma como foi educado, pela comunidade onde cresceu, pela sociedade que mudou. Quando eu me sentei pela primeira vez com meu filho para jogar “Wii”, peguei os controles e perguntei: Como eu faço pra jogar agora? E ele não compreendeu a pergunta. Para ele era claro que eu ia começar a jogar até entender como funcionavam os comandos e a lógica do jogo. Eu vim de um mundo onde tudo era explicado por um manual. Somos diferentes em vários aspectos e somos complementares em vários momentos. Aprender a respeitar estas diferenças é fundamental. Compreender que cada geração pode agregar valor ao objetivo da empresa é vital para a organização. E não ficar dizendo que uma geração é melhor do que a outra, porque isto não existe. Todas as gerações são boas e construtivas, cada época teve os seus pontos positivos. Tentar esclarecer opiniões divergentes quando o modelo mental difere é importante. Se eu penso de uma forma diferente do meu chefe, posso dizer isso a ele e questionar se esta diferença se dá porque são gerações distintas olhando pro mesmo problema. Sempre sabendo que a forma da geração Y questionar é mais direta ( o que pode ser agressivo na percepção dos chefes) e que a agressividade pode criar uma resistência a resolver o problema.
Marcelo Miranda – Qual a melhor maneira para o jovem aprender a lidar melhor com as frustações que certamente encontrará na carreira?
Eline Kullock – Nós vivemos numa época onde a velocidade foi se tornando mais importante. Se você não responde um e-mail no mesmo dia, ou se não devolve uma ligação telefônica no mesmo dia, você não é rápido o suficiente. Ser rápido passou a significar capacidade de enfrentar o mundo. Criamos o internet banking, os drive-thru, queremos internet mais rápidas , não aguentamos nem esperar pelo elevador! Quando eu explico que na minha época, meu e-mail era a carta, que demorava 10 dias pra chegar ao seu destinatário e mas 10 dias para o encaminhamento da resposta, os jovens riem. Já existem casamentos drive thru e enterros drive thru. Vivemos num mundo acelerado que não se organiza tão rapidamente para lidar com a rapidez da vida. Nem a legislação, em a escola, nem as outras instituições são tão rápidas. Certamente os jovens vão se frustrar com o tempo de tomada de decisão das organizações. Quando o jovem está no seu barquinho a remo, na sua vida, ele vira o seu barco 180 graus na hora em que quer. Quando entra no grande navio que é a corporação, este navio não vira tão rapidamente quanto ele gostaria. A empresa leva um tempo para digerir e promover mudanças. Como a legislação, como a escola. É necessário uma grande dose de paciência ( palavra que o jovem, de maneira geral, tem muita dificuldade em assimilar). Encontre um coach com quem conversar, um tutor, enfim, vá falar sobre as suas frustrações. Mas não saia correndo de uma organização em busca de outra porque você se confrontará com a questão de ritmo em quase todas.
Marcelo Miranda – Qual a melhor maneira para o jovem aprender a lidar com tanta informação disponível?
Eline Kullock – Eu acho que é necessário uma capacidade de filtrar as informações relevantes e suficientes enorme, no mundo de hoje. Saiba pesquisar sempre, obter a informação necessária sempre, mas saiba onde há armadilhas, onde e quando a informação é confiável, e saiba quando parar de buscar informações porque a quantidade de notícias é enorme. As diferentes versões existirão sempre. Saiba ser analítico e não acreditar sempre nas versões recebidas. Saiba procurar uma opinião contra a que você acreditou, para ter mais convicção na hora de defender seus pontos de vista. A capacidade de analisar uma situação ou um problema será determinante na sua carreira. Saiba ser profundo nas suas análises e para ser capaz de fazer isto, frequentemente, é bom compreender os dois lados da moeda. Saiba fazer análise e síntese.
Marcelo Miranda – Quais os três conselhos para os jovens para se desenvolverem e crescerem profissionalmente?
Eline Kulock – Talvez, Marcelo, eu já tenha dito ao longo desta nossa conversa, os meus três conselhos básicos.
O primeiro é “seja curioso”. A curiosidade é o primeiro passo da criatividade, da inovação. Quem não questiona não cria nada novo. Então, pergunte sempre, pense em alternativas para um dado problema e não numa solução única. O mundo muda por pessoas que não se conformam com questões que eles acreditam que podem ser modificadas. Crianças são curiosas por natureza. Faça esta mágica permanecer em você.
O segunda conselho que eu daria é “saiba escutar”. Deixe que os outros falem e só então crie sua própria opinião. Escute feedbacks, pontos de vista, sem preconceitos. Ninguém é dono da verdade e você pode estar aplicando a decisão errônea para um determinado problema. Essa maturidade, essa capacidade de esperar para ter certeza de uma opinião, vai permitir que você faça uma análise mais profunda na hora da tomada de decisão. Não seja impulsivo. Saiba fundamentar sua decisão com uma vasta gama de motivos.
A terceira orientação é conheça seus pontos fortes e pontos a serem desenvolvidos. E para reconhecer pontos fracos é necessário muita maturidade. É preciso estar muito seguro de si, e as pessoas inseguras tem mais dificuldade em aceitar críticas. Peça sempre um feedback do seu comportamento. Pergunte aos seus chefes, aos seus pares e aos seus subordinados. Escute ( recomendação número 2!!). Peça exemplos de onde e quando se comportou desta ou daquela maneira. Não contra argumente quando confrontado com um ponto a ser desenvolvido. Peça mais exemplos e confirme as possibilidades com outros colegas. Em locais adequados a uma boa conversa íntima, com o tempo necessário para que o outro possa desenvolver sua tese. Lembre-se sempre que todos tem pontos a desenvolver. E pontos fortes, com certeza.
Marcelo Miranda – Qual sua opiniáo para como o gestor da geração X ou baby-boomer para lidar com equipes com jovens da geração Y da melhor maneira?
Eline Kullock – Para que o gestor possa lidar bem com todas as gerações é necessário primeiramente que ele entenda que as gerações pensam de forma diferente. Que cada geração terá suas demandas específicas. A Geração Y se ressente da baixa frequência de feedback, por exemplo. A Geração Y quer reuniões mais rápidas e processos menos engessados. Escute cada demanda e compreenda que nem todos pensam com sua cabeça, baseados no seu conjunto de crenças e vivências. Dê espaço para que coloquem seus pontos de vista. Nenhuma opinião ou pergunta é boba. Todas são válidas. Saiba se colocar no lugar dos outros. Ver a vida pelo olhos deles. Saiba criar espaços onde as pessoas podem reclamar, questionar, abrir debates. As pessoas precisam disso e vão confiar mais em você se você confiar mais nelas. Não deixe de colocar suas próprias opiniões. Você tem suas próprias opiniões, claro, e deve explicitá-las, mas ouvir outros pontos de vista só farão de você um gestor mais completo.
Perfil: Eline Kullock
Eline é presidente do Grupo Foco, consultoria que fundou há 19 anos e hoje conta com 250 funcionários e 8 filiais nos estados mais importantes do Brasil...
...Eline escreveu diversos artigos para jornais e revistas, discutindo as tendências das organizações e seus funcionários, sempre baseada em estudos e pesquisas.
Seu know-how também é fonte de referência em assuntos de RH para veículos da grande imprensa, como Gazeta Mercantil, Exame, TV Globo, Folha de São Paulo, entre outros veículos
Eline pesquisa há vários anos tendências do comportamento dos jovens e a influência dos videogames em sua atuação profissional, tendo sido fonte de referência para a imprensa nacional no assunto, especialmente quando se fala em “Geração Y“
Iniciou a carreira na diretoria da Mesbla Loja de Departamentos, atuando como Diretora de Recursos Humanos, Planejamento Estratégico e Organização. Também foi Diretora da Servenco, na holding que congrega empresas de construção, incorporação, administração de imóveis, Hotelaria e Administração de Shopping Centers.
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